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Morre Dídimo Paiva, jacuiense ícone do jornalismo

Morreu na madrugada deste sábado (9) o jornalista Dídimo Miranda de Paiva. Natural de Jacuí (MG) atuou por mais de 40 anos só no estado de Minas, foi editor Internacional, Nacional, Opinião e também trabalhou como editorialista do jornal EM.

Mineiro de Jacuí, nascido em 13 de julho de 1928, Dídimo era o sexto de nove filhos de Sebastião José Paiva e Carolina Borges de Miranda. Em 1943, deixou a terra natal e foi para São Paulo, onde trabalhou no jornal Estado de São Paulo e O Tempo. Chegou em Belo Horizonte em 1948, para trabalhar na Tribuna da Imprensa e no oposicionista Binômico (classificado pelos militares como subversivo), marco da resistência da imprensa nacional à censura e à ditadura. Em 1960, vai para o Última Hora, e em 1962, a convite de Guy de Almeida, para o Correio de Minas, além de trabalhar na TV Belo Horizonte e no O Diário.

Internado no último sábado (2) por conta de complicações de uma pneumonia, deixou a esposa, Maria Aparecida Murta dos Santos, seis filhos de dois casamentos e sete netos. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) publicou um documentário  sobre o jornalista. Assista.

O jornalista foi um dos símbolos da resistência ao autoritarismo, à censura, à intolerância e também da solidariedade, da amizade, do jornalismo em sua essência, independente. Ao longo de nove décadas, colecionou inúmeros amigos, mesmo entre aqueles que não comungavam com seus ideais. 

Dídimo foi um dos precursores do renascimento do movimento sindical brasileiro – desestruturado e massacrado durante a ditadura militar instalada em 1º de abril de 1964. O protagonismo como jornalista intransigente e defensor das liberdades civis, audaz e destemido, o levou a assumir, em 1975, a presidência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG/Casa do Jornalista), dando início a um novo sindicalismo. 

A Casa do Jornalista de Minas Gerais tornou-se, a partir de então, referência dos movimentos sociais e de oposição à ditadura, chegando mais tarde a ser alvo de atentado a bomba atribuído ao grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC), em 27 de agosto de 1980. 

Assim que empossado, o jornalista convocou sindicalistas de vários estados para um encontro “de reestruturação do movimento sindical no Brasil”, ocasião que recebeu um telefonema do então governador do estado nomeado pelos militares, Aureliano Chaves (Arena), na tentativa de demovê-lo do encontro que foi proibido pelo governo federal e considerado “subversivo”.

“Ele foi veemente na decisão de realizar essa reunião e apelou ao ‘espírito democrático’ do então governador para que não obstruísse a iniciativa”, conta o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Monlevade, João Paulo Pires de Vasconcelos, um dos ícones do sindicalismo, ao lado do ex-presidente Lula, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista. “Foi o início da resistência que viria a reunir todas as forças políticas e sociais de oposição ao autoritarismo”, lembra o sindicalista.

Naquele instante, o jornalista reafirmava seu papel de personagem preponderante no cenário político nacional do período, marcado por prisões, sequestros, torturas e, principalmente, pela censura. Tudo o que fosse entendido pelo governo como transgressor ou subversivo deveria ser reprimido e severamente punido. 

Por seu perfil ético e combativo, Paiva chegou a ser cogitado para ser ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), mas agradeceu a honraria. Em 1985, foi foi convidado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) para participar da discussão e redação do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em 1985. 

O perfil oficial do ex-presidente Lula no Twitter comentou a morte do jornalista mineira. “Meus sentimentos à família e aos muitos amigos do companheiro Dídimo Paiva. Jornalista corajoso que teve importante papel na construção e articulação nacional do novo sindicalismo. Para sempre em nossa memória”.

Leia abaixo a carta de Edras, filho de Dídimo

Meu pai foi um homem bravo. Tinha um estopim curtíssimo. Ficou mais doce com o passar dos anos – sobretudo depois que os netos nasceram. Era um cara bonito: olhos azuis impressionantes, o rosto triangular, o nariz grande e bem feito – e uma cicatriz na testa, obra de um golpe errado de um machado na hora de cortar lenha na juventude. Mas não era nem um pouco vaidoso. Não me lembro de tê-lo visto entrar em alguma loja para experimentar um novo terno ou camisa de grife. Não gostava de viajar, tinha medo de avião, bebia pouquíssimo, fazia barba todos os dias. Detestava tecnologia. Nunca teve celular nem perfil em rede social. Dirigia devagar – não passava de 80 por hora. Dirigia mal mas só bateu o carro uma vez na vida, e ele jurava que não foi culpa dele. Por uma razão desconhecida, só gostava de carros da Volkswagen. Era discreto e misterioso. Não sei se acreditava em Deus ou se era ateu – mas acho que ele não sabia de cor o pai nosso. Gostava mesmo de duas coisas: ler e escrever. Era um vício, uma doença, uma missão. Uma paixão.  Muitos domingos acordei ao som do tec tec da máquina de escrever – e fui dormir ouvindo lá longe aquele barulhinho repetitivo. Meu pai e sua velha máquina de escrever, uma Remington, que ele martelava diuturnamente com os dois dedos indicadores, o datilógrafo mais rápido do Brasil, como costumava  gargantear. Também era um mestre na arte de pregar idéias libertárias. Amava a democracia, a liberdade de imprensa, o respeito entre os poderes. Na minha infância, em Belo Horizonte, meados dos anos 70, nossa casa era uma espécie de quartel general das liberdades democráticas. A casa vivia cheia – eram longas conversas com gente da esquerda, da direita e do centro. Acho que foram alguns dos anos mais ativos – e felizes – da vida dele.  Meu pai começou a morrer no dia em que deixou o “Estado de Minas”. Era um vínculo poderoso demais para ter aquele desfecho.  Não suportou o fim da carreira no jornal. A vida do velho repórter perdeu um pouco da graça.  Redação era uma extensão dele próprio.  Tinha um orgulho danado de ter escrito o código de ética do jornalista. E nesse campo era imbatível. Se gabava de não aceitar viagens, presentes, convites. Achava que se aceitasse qualquer mimo perderia independência. Amava a política, mas nunca aceitou entrar para a política – embora convites não tenham faltado ao longo dos seus 90 anos de vida. Conseguiu viver fiel aos seus princípios.  Vai direto pro céu. Valeu por tudo pai. Com amor e admiração,  seu filho, também jornalista, Esdras Paiva.

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