ColunistasTania Cristina Nunes

SUICÍDIO

Iniciamos a partir de hoje uma série de matérias abordando a questão do suicídio. Vale a pena acompanhar esse tema que assusta e tem o poder de devastar, solapar e repensar a natureza humana.

PARTE I

TÃO ANTIGO QUANTO A HISTÓRIA DA HUMANIDADE

O suicídio tem se tornado assustadoramente comum nos dias de hoje, sendo um fenômeno complexo, multifatorial e um problema de saúde coletiva de grandes proporções. Cerca de 800 mil pessoas suicidam hoje no mundo, 1 indivíduo se mata a cada 40 segundos e no Brasil, a média é de um caso a cada 45 minutos. Já o número de tentativas de suicídio, são 10 vezes maiores e estima-se que há 8 milhões de tentativas no mundo a cada ano.

O suicídio de imediato pode ser o mais individual dos atos, no entanto, se constitui como uma tragédia pessoal, familiar e social, uma vez que não causa apenas sofrimento à pessoa mas afeta todos que estão próximos.

Não sabemos com exatidão quando ocorreram os primeiros suicídios. Nunca saberemos, mas é muito provável que uma vez ocorrido o suicídio e outras pessoas tomando conhecimento dele, o ato tenha sido repetido. Até hoje o ato suicida possui um aspecto perigosamente contagioso, pois exerce sobre os vulneráveis, um apelo indiscutível como solução de último recurso. Por isso, a maneira como os meios de comunicação e as redes sociais tratam os casos de suicídio pode influenciar a ocorrência de outros. Evitar falar sobre o assunto é a pior solução e ao abordá-lo não se deve falar sobre métodos ou causas, muito menos dar ênfase (como se fosse solução para os problemas da vida).

Na Grécia Antiga já havia muitas crenças fundadas a respeito do assunto: em Tebas e Atenas quem se matava não tinha direito aos rituais fúnebres e ficava sem as mãos (eram decepadas). Aristóteles e Pitágoras viam o atentado contra a própria vida como sendo um ato de covardia.

Em contrapartida, em outras situações retratadas por Homero o suicídio era visto e aceito como questão de honra, apoiando princípios religiosos ou filosóficos ou para escapar de um inimigo. Sócrates tomou cicuta na intenção de defender até a morte suas ideias e crenças. Shopenhenhauer dizia: “Assim que os terrores da vida superem em peso o terror da morte, o homem porá um fim à própria vida.”

A igreja católica reprimia ativamente o suicídio, excomungava o indivíduo e negava a ele os ritos fúnebres. Santo Agostinho dizia que tal ato não tinha justificativa porque violava o mandamento da igreja de não matar.

Os finlandeses acreditavam que os indivíduos que cometiam suicídio tinham a alma atormentada e por isso deveriam ser enterrados de bruços e sem tomar banho. A sepultura escolhida deveria ser localizada além da cerca do cemitério. Evitavam o contato com o corpo e com o caixão, pois temiam que a “maldição” poderia ser transmitida para a família.

Na França do século XVII, as leis que tratavam do assunto eram muito rígidas. Quando morria alguém por suicídio, o corpo era arrastado pelas ruas e depois dependurado. O corpo deveria ser jogado numa cloaca, não podia ser enterrado junto ou próximo ao restante da população e não recebia nenhuma assistência do clero.

Estas constatações nos surpreendem pela rigidez mas podem ser compreendidas. Era a forma de a sociedade reagir a mortes tão dramáticas, assustadoras, violentas e das quais não se sabia nada a respeito.

Aos poucos as duras sanções legais e religiosas foram sendo amortecidas. Grandes autores começaram a abordar o assunto de forma mais humanitária, com mais empatia e compaixão. Os sistemas judiciais e a opinião pública passaram a ver o suicídio como um desequilíbrio psíquico, doença e menos como um crime ou pecado.

Os tempos mudaram mas a visão que temos sobre o tema ainda é muito complexa e a dor causada pelo suicídio é imensurável. Ele é incompreensível quando mata o jovem; é terrível no idoso; inexplicável no bem sucedido e no fisicamente saudável e explicado demais quando atinge o angustiado, fracassado ou doente.

Há que se combater o preconceito e procurar ajuda é sempre o melhor remédio. O suicídio é sensível a estratégias de prevenção, tanto mais quanto se encontram ouvidos atentos e corações generosos e principalmente, à AJUDA PROFISSIONAL.

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Tania Cristina Nunes

Psicóloga, formada pela UNIP. Experiência em terapia infantojuvenil e adulto. Experiência em Transtorno do espectro autista. Psicodiagnóstico com intervenção. Apoio na escolarização e orientação e atendimento a pais e responsáveis.

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