ColunistasTania Cristina Nunes

QUASE UMA DEMÊNCIA DIGITAL

Não há dúvidas de que a maior riqueza conquistada por um ser humano é o conhecimento e durante algum tempo acreditou-se que a internet seria a grande propulsora e maior fonte desse tão sonhado conhecimento. Bem, atualmente, não dá para dizer que essa informação é completamente verdadeira, pois exceto uma pequena minoria, o que visualizamos nas plataformas digitais é desinformação, futilidades e incontáveis informações sem conteúdo e que reduzem a capacidade humana de reflexão e senso crítico.

Não devemos confundir informação com conhecimento. A internet, dentre as mídias contemporâneas é a mais fantástica ferramenta para acesso a informação, no entanto transformar informação em conhecimento exige antes de tudo, critérios de escolha e seleção, dado que o conhecimento (ao contrário da informação) não é cumulativo, mas seletivo. “Por isso, oriento meus clientes do consultório sobre filtrar e questionar os conteúdos acessados, pois existe a possibilidade de as pessoas se extraviarem, perdendo tempo com coisas que não acrescentam nada, e principalmente nos mais jovens, criar comportamentos inúteis ou inadequados. Não é por acaso que os rebentos estão diminuindo a capacidade de interpretação, atenção e desenvolvimento de senso crítico.

É como alguém que entra numa livraria ou supermercado sem saber muito o que deseja: ficamos sugestionáveis e levamos qualquer coisa. Por isso é fundamental desenvolver critérios, saber o que se procura, exercer nosso poder de escolha em função do objetivo e assim evitar aquela sensação de débito ou culpa por usar mal nosso precioso tempo. Ao mesmo tempo, numa sociedade em que somos o tempo todo bombardeados por post, informações,“fake news”, retratos de vida de rede social,  ficamos vulneráveis a frustrações em diferentes âmbitos, pois o mundo virtual nem sempre condiz com nossa realidade.

Além disso, o uso indiscriminado da internet pode resultar em invasão da privacidade, crimes virtuais, apologia a comportamentos inadequados e a atitudes preconceituosas, os quais podem gerar problemas de grande amplitude biopsicossocial, difíceis de resolver e punir; uma vez que, na internet, as informações podem ser rápidas e facilmente disseminadas.

A superexposição também é um grande problema gerado pelo uso errado da internet. Um dos meus autores preferidos, Zygmant Bauman já dizia anos atrás: “Tudo o que é privado agora é feito, potencialmente, em público e está potencialmente disponível para o consumo público; e permanece disponível para a duração, até o fim do tempo, assim como a internet “não pode ser feita para esquecer” nada uma vez que se está gravado em qualquer um dos seus inúmeros servidores. […] A escolha entre o público e o privado está saindo das mãos das pessoas, com a cooperação entusiasta das pessoas e os aplausos ensurdecedores.”

Muitos usuários não param para pensar nos riscos aos quais estão expostos ao compartilhar informações pessoais em plataformas sociais. O mesmo se aplica às poucas restrições ao configurar as permissões dos aplicativos utilizados pelos usuários nesses sites para filtrar quem pode ver suas atividades. Se levarmos em conta que a maioria dos usuários geralmente usa mais de uma rede social, é muito provável que um criminoso possa construir um perfil bastante detalhado de um alvo de ataque, coletando apenas informações sobre seus perfis e atividades em cada uma de suas contas das redes sociais.

Sobressaturadas de informações pessoais, as redes sociais se tornaram um território ideal para os criminosos. Tendo usado esses sites como ferramentas de reconhecimento, um cibercriminoso pode enviar uma mensagem direcionada na qual ele tenta fazer com que a vítima visite uma página falsa, que parece ser legítima, com o objetivo de roubar seus dados de acesso e dinheiro. Eles também podem manipulá-lo para cair na armadilha de abrir um anexo infectado capaz de fazer todos os tipos de coisas, incluindo o vazamento de dados ou a gravação de tudo o que digitamos no computador. Estamos todos vulneráveis a riscos, em Jacuí mesmo, surge com muita frequência denúncias relacionadas com clonagem de aplicativos e vazamento de informações. Indubitavelmente é cada vez mais complexo delimitar onde está a fronteira entre os dois campos daquilo que pode ser considerado real ou virtual.

Atualmente o direito de imagem é violado com maior frequência em virtude da autoexposição demasiada nos aplicativos de comunicação instantânea e nas redes sociais. Precisamos orientar nossos jovens de que jamais encaminhem fotos íntimas, não existe nude seguro já que qualquer sistema pode ser invadido e a foto ser divulgada.

Fruto do vertiginoso desenvolvimento tecnológico do século XX, a internet gerou novas formas de relacionamento e de socialização. Essa profunda alteração nas relações humanas gerou maior rapidez de comunicação, oportunizando significativos avanços na forma como são estabelecidas as dinâmicas profissionais, comerciais, científicas, educativas e pessoais. Todas essas modificações provocam diversos benefícios econômicos e sociais. No entanto, tem causado prejuízos na interação humana. Aqui mesmo em nossa cidade, me deparo constantemente com essa realidade: vejo casais em mundos paralelos, cada um envolvido com seu celular e famílias em momentos de lazer navegando pela internet ao invés de interagirem.

Abaixo vamos citar alguns malefícios do uso excessivo do celular em crianças e gostaria de ressaltar que estas informações foram baseadas em pesquisas e que pudessem gerar uma reflexão a respeito do problema.

– Celular vicia sim: O uso em excesso desses aparelhos pode causar dependência. Estudos demonstram que uma a cada 11 crianças são viciadas às novas tecnologias, se distanciando do seu meio, amigos e familiares.

– Desenvolvimento atípico do cérebro da criança: O cérebro de um bebê cresce muito rapidamente nos primeiros anos de vida, sendo triplicado o tamanho até completarem dois anos de idade. Pesquisas apontam que alta exposição às tecnologias pode causar o aceleramento do crescimento cerebral, causando déficit de atenção, atraso cognitivo, distúrbios de aprendizado, aumento da impulsividade e falta de controle das próprias emoções (as famosas “birras”). Causam ainda, diminuição da concentração e memória dos pequenos.

– Obesidade Infantil: o sedentarismo que implica o uso das tecnologias é um dos problemas que está aumentando entre as crianças. Estima-se que crianças com aparelhos eletrônicos no quarto têm 30% mais chance de serem obesas. Além disso, a obesidade leva a outras doenças mais graves, como o diabetes, problemas vasculares e cardíacos.

– Atraso no desenvolvimento da criança: Ao usar em excesso as tecnologias disponíveis pode acarretar a limitação do movimento e consequentemente o rendimento acadêmico, a alfabetização, atenção e as capacidades.

– Alteração do Sono Infantil: A maioria dos pais não supervisiona o uso das tecnologias pelos seus filhos quando estão em seu quarto, seja ela internet ou televisão. A constante utilização desses recursos pode acabar gerando dependência na criança em diferentes níveis. Um dos problemas relacionados a isso se dá ao fato de muitas crianças deixarem de dormir para jogar, assistir filmes ou simplesmente conversar pela internet. Essa rotina pode causar várias consequências psicológicas, como também diminuir o rendimento escolar. Vale lembrar que a falta de sono noturno pode acarretar problemas de crescimento.

– Superexposição: O constante uso de aparelhos para se conectar à rede tornam as crianças vulneráveis e sujeitas a serem exploradas e expostas a abusos. Há um aumento considerável em casos de pedofilia e crimes relacionados a encontros de crianças com desconhecidos que conhecem pelas redes sociais.

– Problemas emocionais: Há diversos estudos realizados em todas as partes do mundo que ligam o uso excessivo das tecnologias a uma séria de distúrbios mentais como a depressão, ansiedade, autismo, transtorno bipolar, psicose e distúrbios no processo de vinculação entre pais e filhos.

– Demência digital: Psicólogos e pediatras tanto da Academia Americana de Pediatria quanto da Sociedade Canadense de Pediatria afirmam que conteúdos multimídias em alta velocidade reduzem as faixas neuronais para o córtex frontal, que podem contribuir para o aumento do déficit de atenção, causando problemas de concentração e memória.

– Emissão de radiação: A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica os celulares como um risco na emissão de radiação. Ainda é muito polêmica e pouco conclusiva a discussão sobre a relação entre o uso de celulares e o surgimento de câncer cerebral. Porém, os cientistas concordam que as crianças são mais sensíveis aos agentes radioativos do que os adultos, correndo um risco maior de contrair doenças como o câncer. Dessa forma, pesquisadores canadenses acreditam que a radiação que os celulares emitem deveria ser classificada como “provavelmente cancerígena” para as crianças.

– Condutas agressivas: Crianças tendem a repetir os comportamentos dos adultos e de personagens que consideram referência, elas imitam o que costumam e gostam de ver. Assim, quanto mais expostos a jogos e vídeos violentos e agressivos, mais chance de ocasionar problemas de agressividade, alterando a sua conduta. Dessa forma, os pais devem estar constantemente em vigia do conteúdo e uso de smathphones e tablets pelos seus filhos.

Para finalizar gostaria de lembrar que somos seres sociais por natureza e que a internet é um recurso maravilhoso, mas cabe a nós sabermos fazer bom uso dela.

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Tania Cristina Nunes

Psicóloga, formada pela UNIP. Experiência em terapia infantojuvenil e adulto. Experiência em Transtorno do espectro autista. Psicodiagnóstico com intervenção. Apoio na escolarização e orientação e atendimento a pais e responsáveis.

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