ColunistasTania Cristina Nunes

FORA DO NINHO: o impacto do início da escolarização

O início do ano letivo traz muita ansiedade não apenas para as crianças, mas principalmente para os pais que estão deixando pela primeira vez, os filhos nas escolas. O período de adaptação é uma fase de transição que representa muito mais que o simples ingresso da criança na vida escolar, representa um mundo de emoções, de cuidados, de expectativas e descobertas. Todos esses sentimentos podem ser vividos pela criança e pelos pais de forma intensa.

Se o novo gera insegurança e ansiedade em qualquer idade, na Educação Infantil esse processo é ainda mais intenso. Saindo de suas zonas de conforto, os pequenos se veem em um ambiente coletivo com regras diferentes das de casa, são estimulados a participar de atividades incomuns ao seu dia a dia e passam a conviver com adultos e crianças inicialmente estranhos. Este processo se não for bem administrado, pode gerar um grupo de comportamentos e sintomas ao qual chamamos de ansiedade de separação.

A ansiedade de separação pode ser vista como a manifestação de um medo intenso que a criança sente de se separar de uma figura vinculadora (normalmente, a mãe), quando percebe que está afastada dela. A ansiedade de separação é um transtorno comum na infância e na adolescência e pode trazer angústia tanto para os pais, quanto para as próprias crianças, causa prejuízos no desenvolvimento infantil, no desempenho escolar e nas relações sociais. Torna-se grave por manifestar sinais sintomáticos, tais como: dor de cabeça, dor de barriga, tonturas, náuseas e até vômitos ou mesmo resfriados e dor de garganta. A Psicoterapia é muito importante e pode ajudar a criança a passar por essa nova fase, sendo necessário o envolvimento dos pais e da escola. O tratamento tem como objetivo ensinar as crianças a lidar com as emoções e enfrentar melhor a vida bem como reduzir os sintomas ou manifestações psicossomáticas aos pais se organizarem melhor emocionalmente, diminuir a ansiedade e exporem seus sentimentos.

Para as mães principalmente, pode ser difícil lidar com seus sentimentos ao ver tudo isso acontecer: esse é um momento de transição em que a criança vai se habituando à nova rotina longe dos familiares que tem como referência. Aprender a lidar com essas emoções é uma etapa importante tanto no papel de mãe quanto no desenvolvimento desta criança e a tentativa de blindá-la só a deixará frágil.

Já a ansiedade num nível normal é um sentimento natural e faz parte do desenvolvimento da criança, afinal ela está indo para um lugar estranho e ficará longe de suas figuras de proteção. Por isso mamães, muita calma nessa hora. Dia após dia, ela vai criando um vínculo com os professores, coleguinhas e atividades, sentindo-se cada vez mais segura.

Quando a criança se recusa a ir ou a permanecer na escola por medo de separar-se de seus pais ou figura de vínculo, essa exposição deve ser gradual para permitir que ocorra a habituação à ansiedade, respeitando as limitações da criança e seu grau de sofrimento e comprometimento. No entanto, é fundamental que os pais evitem ao máximo que a criança falte nessa fase, mesmo que não consiga ficar o turno todo, ela precisa criar o hábito de sair de casa e ir para a escola. A criança precisa ter rotina e constância de lugares e pessoas no seu dia a dia, para que consiga se organizar internamente.

Não existe um tempo determinado para essa transição. Em geral, o período inicial da adaptação normal dura entre uma ou duas semanas, mas depende da criança, da família e de suas experiências anteriores relacionadas às separações que se enfrenta na vida. Já se tratando do Transtorno de Ansiedade de Separação, a perturbação deve ter duração mínima de 4 semanas, causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social.

ABAIXO DOU ALGUMAS DICAS PARA LIDAR MELHOR COM ESSE PROCESSO DE MUDANÇA:

-DIÁLOGO, DIÁLOGO E DIÁLOGO, mesmo que a criança ainda não compreenda seu discurso fale muito com ela;

-Sempre explicar que vai deixa-la na escola, mas voltará;

Quando o choro aparecer, o melhor é reforçar que a escola é importante, que você sabe que ele está sofrendo, mas acredita que ele vai conseguir superar. É difícil para a criança e para os pais, mas é necessário firmeza.

Explicar que a mamãe não estará presente, mas a professora estará disponível para o que ele precisar. Durante esse processo, é fundamental que a criança se sinta segura e perceba que está no meio de pessoas dignas de sua confiança.

Deixar um brinquedo ou objeto que a criança goste pode ajudar bastante, pois objetos familiares remetem ao conforto do lar e à família e, por isso, trazem segurança emocional. Nesse sentido, não é indicado que professores incentivem o descarte dos itens de apego logo no início das aulas. Com o tempo, o objeto perderá sua importância e poderá ser deixado de lado durante as atividades de rotina.

-Incentivar comportamentos independentes, desenvolver autonomia: Para a criança que precisará encarar a rotina de aulas pela primeira vez, uma boa maneira de introduzir o assunto é dizer que ela está crescendo e que, por isso, precisa de um espaço para brincar com outras crianças e aprender coisas novas. 

Além das palavras, a família pode adotar atitudes positivas e que estimulem o pequeno a ir para a escola. Por isso, vale oferecer um material que a criança goste, pode ser um caderno de desenho ou lápis de cor para que possa usar em sala de aula ou no momento do recreio.

– Dizer frases como: Você está indo muito bem na escola e comemorar cada pequena conquista.

Recomenda-se que a despedida seja algo natural. Coloca-se em evidência as questões satisfatórias que os filhos terão contato na escola (os amiguinhos, as brincadeiras e as atividades das aulas.

Promova educação para a vida: deixar que esta criança explore o mundo e se frustre. O ideal é estimular dentro do processo de realidade que a frustração faz parte da vida e a criança precisa aprender a lidar com ela e superá-la. Os pais precisam mostrar que têm defeitos, fraquezas e qualidades, e que isso é normal do ser humano, assim como errar também é normal. É importante mostrar que fazemos o nosso melhor, mas às vezes erramos, e aí corrigimos e tentamos fazer melhor da próxima vez.

O desafio dos pais é ajudar as crianças a passarem por esse caminho (das mudanças) com mais leveza e confiança. Isso quer dizer que é necessário primeiro cuidar do nosso estado interno, pois se estivermos inseguros, será mais difícil gerar coragem neles. Assim, conte ao seu filho que você também sente medo do desconhecido, mas que, juntos, vocês podem conhecer e aprender o que aquela situação vai trazer. Se falamos de um lugar confiante e seguro, a tendência é que as crianças ativem sua resiliência e acreditem em sua capacidade para enfrentar o novo desafio.

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Tania Cristina Nunes

Psicóloga, formada pela UNIP. Experiência em terapia infantojuvenil e adulto. Experiência em Transtorno do espectro autista. Psicodiagnóstico com intervenção. Apoio na escolarização e orientação e atendimento a pais e responsáveis.

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